Artist’s Statement

POR.


Na contramão da avalanche de imagens digitais produzidas no contemporâneo, sua nova função de impermanência e desaparecimento nas mídias sociais, da estética do banal, do pequeno, da fluidez do tempo, da escravização do gesto do braço, da dependência do visor luminoso e da falta de reflexão sobre o que se vê, o artista explora justamente o contrário, resgatando a fotografia analógica no momento de sua gênese, cuja função era outra, contemplativa, e exigia uma outra relação com o tempo, tanto de concepção e produção da imagem quanto de observação e entendimento da visualidade.

Através do resgate expandido do colodio úmido artesanal a linguagem se enriquece na medida em que a plasticidade do material fotossensível vai imprimindo as marcas do fazer e expõem sua delicada superfície, vulnerável e frágil, protegida pelo suporte do vidro. O olhar é convidado a dedicar atenção e tempo para percorrer com suavidade tátil todos os detalhes, entornos, contornos, cantos, formas, fundos da imagem. Desejo, memória e pulsão emergem deste exercício.


ENG.

In contrast to the contemporary avalanche of digital images—characterized by impermanence and disappearance on social media, an aesthetic of the banal and the trivial, the fluidity of time, the enslavement of the arm’s gesture, dependence on glowing screens, and a lack of reflection on what is seen—the artist explores the exact opposite. He revives analog photography at the moment of its inception, when its function was contemplative and demanded a different relationship with time—regarding both the conception and production of the image and the observation and understanding of the visual experience.

Through the expanded revival of the handcrafted wet-plate collodion process, the visual language is enriched as the plasticity of the photosensitive material imprints the marks of its making and reveals a delicate, vulnerable, and fragile surface—protected by its glass support. The viewer is invited to devote time and attention to gently traversing every detail, setting, outline, corner, shape, and background of the image. Desire, memory, and impulse emerge from this exercise.

UMIDUS

POR.


O Projeto Umidus leva esse nome em latim, cujos sinônimos são umida, umidum e refere-se à umidade, aquilo que é impregnado de água ou com vapor de água. A água como substância formada por hidrogênio e oxigênio, líquida, transparente, incolor, insípida, inodora, indispensável para a sobrevivência da maior parte dos seres vivos. Como condição da vida, da existência, manifesta em forma de chuva, lágrimas, suor, seiva, urina e repleta de brilho, ondulações, veios, reflexos, fluidez. Água como fronteira limítrofe de terras e mares. Água como processo.


ENG.

The Umidus Project takes its name from the Latin word—which also appears as *umida* and *umidum*—referring to moisture, or that which is impregnated with water or water vapor. Water: a substance composed of hydrogen and oxygen; liquid, transparent, colorless, tasteless, and odorless; indispensable for the survival of most living beings. A condition of life and existence, manifesting as rain, tears, sweat, sap, and urine, and teeming with shimmer, ripples, currents, reflections, and fluidity. Water as the boundary between land and sea. Water as a process.

CORPUS

POR.


Diante da idealização espetacularizada do corpo feminino no contemporâneo, escravo da imagem na sociedade de consumo impulsionada pela supervalorização da forma, da superfície, da aparência, onde a promessa ilusória de felicidade e prazer baseia-se na insegura projeção de uma dimensão do corpo perfeito, objeto de idolatria, porém, rarefeito, anestesiado, sinteticamente domesticado, metabolicamente adulterado, o projeto CORPUS resgata justamente o contrário, o corpo vibrante em constante tensão, o corpo expressivo que sente, o corpo deformado, mutilado, desestabilizador de certezas, mesclado de sujeito e objeto, simbolizando carne e crítica, o corpo incitador do debate sobre sexualidade, dor, vida, longevidade e cultura.


ENG.

Faced with the spectacularized idealization of the female body in contemporary times—enslaved by imagery within a consumer society driven by the overvaluation of form, surface, and appearance, where the illusory promise of happiness and pleasure rests on the precarious projection of a “perfect body” (an object of idolatry that is nonetheless rarefied, anesthetized, synthetically tamed, and metabolically altered)—the Corpus project retrieves the very opposite: the vibrant body in constant tension; the expressive, feeling body; the body that is deformed, mutilated, and destabilizing of certainties; a body that merges subject and object, symbolizing both flesh and critique; a body that incites debate regarding sexuality, pain, life, longevity, and culture.

APPARITIONE

POR.


No lugar da subordinação das imagens fotográficas quanto ao uso dogmático preciso e regular à serviço da luz da ciência, tanto no micro quanto no macrocosmos, a série Apparitione aposta na escuridão, nas zonas de sombra, permitindo a manifestação do desvio ao utilizar receitas de colódio úmido vencido, apostando na rebeldia da matéria onde as manchas assumem o papel protagonista da expressão do incomensurável marcadas na espessura da superfície de seu suporte condenado à velatura. 

Convidar o espectador à um mergulho no interior do processo, aos bastidores da operação, molecular, quântico, para assim desvendar peculiaridades despercebidas, viajar ao desconhecido. Propor o retorno do lugar imaginante da imagem através do acaso manifestado no erro, no desvio, na contaminação, na hibridização. Ascender à atmosfera do sonho cósmico, verdadeiras constelações de pulsões, desejos e memórias. 

ENG.

Instead of subordinating photographic images to precise, regular, and dogmatic use in the service of scientific enlightenment—whether in the microcosm or the macrocosm—the *apparitione* series embraces darkness and zones of shadow. It allows for deviation to emerge through the use of expired wet-collodion formulas, banking on the rebelliousness of the material itself; here, stains take center stage in expressing the incommensurable, leaving their marks within the thickness of a surface destined to be veiled.

To invite the viewer to dive into the inner workings of the process—into the molecular and quantum behind-the-scenes of the operation—thereby unveiling overlooked peculiarities and journeying into the unknown. To propose a return to the image’s capacity to spark the imagination, through chance manifested in error, deviation, contamination, and hybridization. To ascend into the atmosphere of a cosmic dream—true constellations of drives, desires, and memories.

LOCUS

POR.


Não existe mais futuro, senão apenas revisitação do passado por meio de atualizações no presente, agora ressignificados sobre a ótica da multiplicidade, heterogênea, transdisciplinar e dialógica. Não se trata de anacronismo reacionário desesperado, nem de romantismo ás práticas precedentes, mas sim de recuo crítico, observar de fora, á situações pré-aparelhísticas na tentativa de inverter a relação homem-aparelho em busca de vestígios de contatos vivos e quentes entre os homens. A caixa preta como forma de problematização da questão contemporânea através do resgate de processos pré-fotográficos remixados com pós-fotográficos objetivando virtualidades dialógicas dormentes para criação de novos horizontes, outras paisagens, neste caso, cartografadas sobre corpos híbridos. 

ENG.

There is no longer a future, only a revisiting of the past through present-day updates—now re-signified through the lens of a multiplicity that is heterogeneous, transdisciplinary, and dialogic. This is neither a desperate, reactionary anachronism nor a romanticization of past practices; rather, it is a critical step back—an external observation of pre-apparatus situations—in an attempt to invert the human-apparatus relationship and seek traces of living, warm human connections. The “black box” serves as a means to problematize the contemporary condition by recovering pre-photographic processes and remixing them with post-photographic ones, aiming to unlock dormant dialogic virtualities for the creation of new horizons and landscapes—landscapes that, in this instance, are mapped onto hybrid bodies.

PULSATIO

POR.


A prática fotográfica experimental em consonância com a problemática atual referente às afecções do corpo, a percepção do espaço e à apreensão do tempo. Agir contra a mobilização de tendências em nós recalcadas, contra a paralisia de nossas faculdades críticas, contra o adormecimento de nossas consciências. 

Exibir a poética do processo, seus intervalos, suas fases des-automatizadas como forma de resistência à alienação numerizada das relações sociais, políticas, éticas mediadas por dispositivos luminosos, somados ao colapso das distâncias, ao empobrecimento dos sentidos, à des-coporificação do sujeito. Injetar novos valores através do estranhamento, da opacidade, do nebuloso como convite à novos mundos, ficcionalmente distintos, organicamente possíveis. 

ENG.

Experimental photographic practice aligned with current issues regarding bodily affections, the perception of space, and the apprehension of time. Acting against the mobilization of repressed tendencies within us, against the paralysis of our critical faculties, and against the numbing of our consciousness. Revealing the poetics of the process—its intervals and de-automatized phases—as a form of resistance to the digitized alienation of social, political, and ethical relations mediated by luminous devices, compounded by the collapse of distances, the impoverishment of the senses, and the disembodiment of the subject. Injecting new values ​​through defamiliarization, opacity, and the nebulous—an invitation to new worlds that are fictionally distinct yet organically possible.